quarta-feira, 24 de outubro de 2012


Sonho Noturno  (Martha Kiev)

Eu era assim, como uma hera agarrada à parede fria e úmida,
a escalar em direção a sua sacada, mesmo sem saber que era sua.
Debrucei-me ao contrário, tal como o morcego dependurado,
invertendo o mundo à minha visão e com o céu a amparar minha queda.
A lua estava lá, mas me era coloquial. Você também estava lá,
mas estava reservada a ser minha única surpresa.
Logo, meu existir suspendeu-se. Não era mais hera,
era um desejar ser o que pudesse te envolver e ser um com você.
Tal loucura nunca me ocorrera, um arfar petrificado,
um súbito turbilhão pelo que a seiva se deixou tomar
e o tremor que causou em meus ramos.
Minhas folhas não eram mais folhas, eram outra coisa,
santificada, iluminada.
E você, amante da lua, passeava os olhos pela noite
e eu então tive a idéia de presenteá-la com o porvir,
o vir a ser do seu amor.
Você inclinou-se na sacada e eu estiquei-me em busca da vitória.
E foi quando a lua refletida numa gota de orvalho da minha folha mais alta
chamou-lhe atenção que vi-me feliz como nunca,
fui vitoriosa pelo que eu não era. Sua mão envolveu meu ramo
e seus lábios me beijaram com suavidade notívaga.
Chopin uma vez fizera o mesmo e a lua, sempre caridosa,
cedeu a si mesma ao artifício da conquista, concedendo-me sua imagem
aos olhos do meu amor.
Quão  santificada é sua luz que permite ao que nasceu da terra
unir-se ao que está bem acima de sua altura!

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