quarta-feira, 31 de outubro de 2012


Poesia em duas partes – Do Amor Profundo e Da Maldição (Martha Kiev)

Do Amor Profundo  

Eu lhe desejo um amor profundo.
Que um raio lhe atravesse o peito.
Que um amor avassalador lhe atinja o coração em cheio.
Que nesse arroubo fantástico seus pés se elevem do chão, que seus olhos se fechem em glória e que seu amor se pinte em mil cores mágicas em suas pálbebras cerradas.
Que cada gesto seu movimente e inspire os perfumes dos mais longíquos cantos do mundo, lhe envolvendo a alma num calor declarado de amor.
Que cada melodia perdida lhe arrebate para onde seu amor está, e lhe inspire a mais terna das alegrias.
Que não coma, não beba e não durma sem que seu pensamento não viaje para lá.
Que a noite venha e lhe traga a visita incorpórea da mais doce fantasia. E que seus sonhos lhe satisfaçam...
E que cada dia se some a outro, e a mais outro, e a mais outro, e a mais outro, nutrindo a esperança infinita de que acolherá seu amor em seus braços...

Da Maldição

E que seu lindo e verdadeiro amor seja inoportuna e burramente desperdiçado por quem ama.
Eis o início da maldição.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012


Pequena Poesia do Vazio (Martha Kiev)

Amava sua liberdade tão exacerbadamente ao ponto do equívoco.
Logo, viu seu espírito aprisionado numa superficialidade travestida de profundidade.
Por fim, seu coração precipitou-se no vazio.


Sonho Noturno  (Martha Kiev)

Eu era assim, como uma hera agarrada à parede fria e úmida,
a escalar em direção a sua sacada, mesmo sem saber que era sua.
Debrucei-me ao contrário, tal como o morcego dependurado,
invertendo o mundo à minha visão e com o céu a amparar minha queda.
A lua estava lá, mas me era coloquial. Você também estava lá,
mas estava reservada a ser minha única surpresa.
Logo, meu existir suspendeu-se. Não era mais hera,
era um desejar ser o que pudesse te envolver e ser um com você.
Tal loucura nunca me ocorrera, um arfar petrificado,
um súbito turbilhão pelo que a seiva se deixou tomar
e o tremor que causou em meus ramos.
Minhas folhas não eram mais folhas, eram outra coisa,
santificada, iluminada.
E você, amante da lua, passeava os olhos pela noite
e eu então tive a idéia de presenteá-la com o porvir,
o vir a ser do seu amor.
Você inclinou-se na sacada e eu estiquei-me em busca da vitória.
E foi quando a lua refletida numa gota de orvalho da minha folha mais alta
chamou-lhe atenção que vi-me feliz como nunca,
fui vitoriosa pelo que eu não era. Sua mão envolveu meu ramo
e seus lábios me beijaram com suavidade notívaga.
Chopin uma vez fizera o mesmo e a lua, sempre caridosa,
cedeu a si mesma ao artifício da conquista, concedendo-me sua imagem
aos olhos do meu amor.
Quão  santificada é sua luz que permite ao que nasceu da terra
unir-se ao que está bem acima de sua altura!

A  Noite  Escura  (Martha Kiev)

Corre sobre o muro, silencioso e ancestral,
Meu eu antigo que entende os hieróglifos,
Que corrompe a razão dos poetas,
Que olha a lua e reconhece seu par.

Corre sobre o muro  o meu eu que suspira a névoa
Que se consente à  ilusão  para sentir de novo o calor do vinho,
Que faz da noite seu altar,
E que faz-se reconhecer aos corações afins.

Corre sobre o muro o  meu eu de olhos negros,
Que é o mestre absoluto do sim e do não,
Que o que faz nenhum deus desfaz,
Cujo nome impronunciável  é a própria noite escura.


I  Can  No Longer Breathe (Martha Kiev)

In the early morning
I find myself amongst shadows of life
I clinch in a fetal position
then feel my heart implode inside
and I can no longer breathe

Strange how it's changed it all for me
and nothing mattered for the rest
I'm just a victim of myself
for being naïve the way I am
and I can longer breathe

For life has taught me a lesson
I had to face my unseen face
for I could learn how to breath under water
for I could brake the surface
but I can longer breathe







Canto  do  Abismo  Profundo  (Martha Kiev)

Minha carne se transformou num campo
de um milhão de bocas que gritam,
de mãos abertas que buscam no ar
algo em que se agarrar, mas não conseguem.
Minhas costelas são dedos ósseos
que pressionam meu peito
a ponto de eu não conseguir respirar.
Parece que todo peso do mundo caiu
sobre meus ombros
e já não consigo sustentar.
Nunca pude, nunca quis.
E agora aqui estou.
Meus olhos se fecham na esperança
de cessar ao menos por um segundo
essa dor profunda, física,
mas isso não vai acontecer.
Minha boca tem sede,
mas nada a umedecerá.
Somente o tempo vai ressequir
meu corpo em carne viva,
vai estancar a sensibilidade ao toque,
vai emudecer a língua e
tornar surdos meus ouvidos.
Somente o tempo vai tirar a alma de mim
e colocar no lugar algo que não sou eu.
Um ser destituído de todo sentimento,
porque para mim eles de nada mais servem.