quarta-feira, 24 de outubro de 2012




Canto  do  Abismo  Profundo  (Martha Kiev)

Minha carne se transformou num campo
de um milhão de bocas que gritam,
de mãos abertas que buscam no ar
algo em que se agarrar, mas não conseguem.
Minhas costelas são dedos ósseos
que pressionam meu peito
a ponto de eu não conseguir respirar.
Parece que todo peso do mundo caiu
sobre meus ombros
e já não consigo sustentar.
Nunca pude, nunca quis.
E agora aqui estou.
Meus olhos se fecham na esperança
de cessar ao menos por um segundo
essa dor profunda, física,
mas isso não vai acontecer.
Minha boca tem sede,
mas nada a umedecerá.
Somente o tempo vai ressequir
meu corpo em carne viva,
vai estancar a sensibilidade ao toque,
vai emudecer a língua e
tornar surdos meus ouvidos.
Somente o tempo vai tirar a alma de mim
e colocar no lugar algo que não sou eu.
Um ser destituído de todo sentimento,
porque para mim eles de nada mais servem.





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