Canto do Abismo
Profundo (Martha Kiev)
Minha carne se
transformou num campo
de um milhão de
bocas que gritam,
de mãos abertas
que buscam no ar
algo em que se
agarrar, mas não conseguem.
Minhas costelas
são dedos ósseos
que pressionam
meu peito
a ponto de eu
não conseguir respirar.
Parece que todo
peso do mundo caiu
sobre meus
ombros
e já não consigo
sustentar.
Nunca pude,
nunca quis.
E agora aqui
estou.
Meus olhos se
fecham na esperança
de cessar ao
menos por um segundo
essa dor
profunda, física,
mas isso não vai
acontecer.
Minha boca tem
sede,
mas nada a
umedecerá.
Somente o tempo
vai ressequir
meu corpo em
carne viva,
vai estancar a
sensibilidade ao toque,
vai emudecer a língua
e
tornar surdos
meus ouvidos.
Somente o tempo
vai tirar a alma de mim
e colocar no
lugar algo que não sou eu.
Um ser
destituído de todo sentimento,
porque para mim
eles de nada mais servem.
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